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A porta fechada

Arrumei as malas e coloquei do lado de fora. Estou cansada desse cheiro, dessa voz, dessas desculpas.
Estou cansada desse nada e desse abismo. Fechei a porta e já não sinto mais vontade de abrir. Sobre o meu medo, vomitei. Sobre o seu, entendi. Fingi que entendi, ignorei. Desisti.

Abro as janelas para um novo mundo - aquelas velhas possibilidades que na verdade já não existiam, estão cinzas, esquecidas, eu recolhi.
Preciso me cuidar. Te ignorar. Reviver.

Preciso entender o que de fato move esse seu mundo, esse seu jeito e caráter. Preciso me permitir voar, sem as asas para quebrar, sem esse rosto para olhar. Quero rasgar o verbo,  me prender ao léu, colorir papel e fazer arder, doer, sangrar. Marcar.

Não são sentimentos meus, nem seus, são de ninguém, coisas e seres inexistentes. Coisas sem importância, esse amor, essa dor. Esse caso que não anda, essa ferida que não cura. Esse esplendor mal interpretado, esse frio irredutível.

Fechei a porta atrás de mim e estou esperando o tempo passar. Quero que o silêncio seja rompido. Não se tem mais sossego dentro de mim; que passem as dores, os medos, os planos.
Que tudo morra ao redor - falo sério. Que tudo morra.

A volta é mais demorada quando se está magoada. Sua voz é quase inaudível pra mim. A saudade não é um remédio, só faz mal.

Estou mudando as minhas roupas, estou aprendendo a decifrar as suas manias egoístas, estou relembrando as frases, revivendo aqueles e-mail antigos que não tiveram importância...
Estou pensando em me mandar, só para ver se você vem atrás e perceber que a minha decepção era racional - porque você nunca vem. 

Fechei a porta, as suas coisas estão do lado de fora. Se for importante, grite. Faça a sua cena. Se envolva e sinta medo. O medo paralisa, eu sei. Talvez o que te falte seja tempo, mas corra. Corra que ainda consegue me alcançar. 

Eu quero encerrar esse ciclo. Quero romper. Se não tem medo de me perder, que seja sem você. Mas que simplesmente seja.

Cind Jami (L

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